Provocada pelo tema do filme de Cristina em Vicky Cristina Barcelona, sobre o porquê da dificuldade em definir o amor, resolvi escrever. Não que o assunto seja inédito, Camões já me havia feito ter essa mesma reflexão com “é um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê.”, sendo, na minha humilde opinião, a perfeita definição do indefinível.
Bom, se Camões não foi capaz de definir o amor, paro por aqui nas tentativas. Então comecei a pensar em o que eu penso do amor. Foi quando me dei conta de que eu mesma já dei ao amor muitos significados diferentes, e que estes variavam, quase que invariavelmente, de acordo com o tempo. Vamos pular a parte de dizer que há amor de amigo, de mãe, pai, filho, cachorro, etc. Preciso mesmo saber mais do amor entre homem e mulher, é esse que me intriga – pra não dizer que irrita.
Enfim, lembrando das minhas próprias experiências, houve o tempo em que pra mim, o amor nascia e morria pelo beijo. Achava que naquele juntar de bocas e corpos ficava todo o sentimento que diziam ser o tal do amor. Pensando assim, como pensava, realmente amei meu primeiro namoradinho, da escola.
Algum tempo depois, descobri algo um pouco maior. Foi o tempo em que o amor era a posse, ter alguém, e ser de alguém. E se uma das duas partes não cumprisse o ‘contrato’, ou seja, se se desse ao ‘luxo’ de ser de outro, ainda que por um momento breve, o contrato era extinto e acabava o amor.
Mais pra frente então, descobri a inadimplência (!), e vi logo que o amor não dependia muito do tal contrato e muito menos do seu cumprimento... a afirmação do compromisso era mera formalidade desse sentimento nada solene.
Depois disso descobri formas mais fugazes de amor. E descobri mesmo, que o amor depende de cada qual, que assim como a dor, o amor é de quem sente. E mais ainda, descobri que o tal compromisso, era nada perto do sentimento. Afinal, podia-se contratar, comprometer-se com um, e sentir o tal do amor com outro? Que droga de sentimento é esse, então?
Em tempos de revolta (que vão e voltam) pensei que o amor não existia. Mera criação de românticos e sonhadores poetas que só fazia sentir mal, por não sentir o amor, o tal (rimei em homenagem aos poetas!).
Aí pensei (e dessa vez achei que tinha encontrado o que procurava) que o amor só existe se for recíproco. Pra ser sincera, salvo algumas falhas das quais falarei já já, essa teoria era das boas, e ainda gosto dela. Afinal, o amor é feito de dois, e se um não sentir como o outro, o amor é mera paixão não-correspondida, qualquer outro sentimento que tenha qualquer outro nome, mas não amor.
Um belo dia, descobri algo muito interessante! O famoso amor à primeira vista! Que sensação! Apesar do quê, não posso jogar fora aqui todo o tempo despendido em pensamentos sobre o amor! Se era à primeira vista, se não havia sequer troca de palavras, um toque, não poderia ser amor! Mas qualquer que seja o nome disso, só sei de uma coisa, é incrível! E um olhar pode dizer muito. Talvez o olhar não seja mesmo capaz de amar, mas que ele pode muito bem começar tudo, ah, isso pode!
Foi então que experimentei o que acho ser o mais próximo da idéia de amor que me ensinaram por aí (se é que isso se ensina). Até hoje faltam-me palavras pra dizer do que foi. Algo muito próximo de um conto de fadas, é como eu gosto de chamar. Então percebi que no amor (esse que eu sentia) tinha também companheirismo, paixão, cuidado, segurança, respeito, admiração e altruísmo, entre outros. Seria então o amor um complexo de sentimentos? Complexo! É, talvez seja por isso que é tão difícil de encontrar, afinal, se falta algum dos muitos sentimentos partes do amor, deixa de ser amor, certo? Essa também não é das piores.
Aí esse amor, complexo e completo, passou de conto de fadas a filme triste, pois não pôde ser. Foi quando descobri que o amor não move montanhas! Muito bonita a metáfora, mas as montanhas de verdade? Não move, não! Lembrei-me agora que no filme que incitou toda essa falação, em algum momento, alguém diz que “amor romântico é o não realizado”. É, vá lá.
Descobri também que o amor muda! Agora mais essa! Sentimentozinho atrevido! Muda sim... pode diminuir, aumentar... passar de amor de amigo pra amor de homem-mulher, e vice-versa (sendo as duas mudanças bem comuns, pelo que pude observar). E pode até mudar devido à perda de um daqueles elementos... pode perder a paixão, e continuar como carinho e respeito! Então talvez não precise de todos os elementos... ou precise deles todos pra ser amor dos bons. Agora inventei até níveis diferentes de amor... o que também não está de todo errado! Existe mesmo amores diferentes em quantidade e qualidade... ai, que canseira!
Depois disso passei de novo pela fase do amor inventado, depois a do amor recíproco mais uma vez.
E falando no amor recíproco, vem aí a falha de uma das minhas melhores teorias: um dia senti algo que chamei de amor, e, pro meu desespero, não era recíproco! Se bem que a minha tese pode ser bem verdade, porque posso chamar de outro nome o que senti, e então validaria minha teoria. Mas eu chamei de amor!
A partir disso chego então hoje à conclusão (provavelmente temporária), e da qual já vinha desconfiando nessas minhas aventuras - e durante as reflexões que sucediam o fim de cada uma delas - de que amor é mesmo aquilo a que a gente dá o nome de amor. Se nasce de um olhar, um beijo, ou um contrato, isso quem sabe é quem sente, e ninguém pode jamais dizer que um ou outro não ama, ou não amou.
Percebi enquanto escrevia isso aqui – nada muito brilhante ou inovador, mas que aquieta por ora minha ânsia por explicações – que amor não é pra pensar, muito menos pra explicar, amor é mesmo pra sentir! E ponto final.